A Genética, área relativamente recente das Ciências Biológicas, tem ocupado um espaço cada vez maior na imprensa mundial. E não é para menos. Trata-se de uma ciência extremamente polêmica. Ao mesmo tempo que apresenta de forma relativamente simples respostas a questões há muito levantadas, também apresenta um potencial de provocar o mal.
Analisando historicamente a Genética temos que seu surgimento deve-se ao monge Gregor Mendel, tido como o pai da Genética. Durante sua vida dedicou-se à vida religiosa e à carreira científica, tendo trabalhado na Física, na Química e na Biologia. Ironicamente, o título que Mendel mais desejava, o de professor de Biologia, jamais foi alcançado.
Mendel dedicou-se a cultivar ervilhas nos jardins do mosteiro e tentar compreender como as características de cada variedade de ervilhas eram transmitidas às gerações seguintes. Em 1865 publicou suas descobertas, em um artigo científico que não teve repercussão e foi ignorado durante vários anos. O mundo ainda discutia energicamente as idéias de Charles Darwin, que em 1859 publicara A Origem das Espécies.
Anos depois três cientistas encontraram independentemente o trabalho de Mendel e ficaram fascinados. Um deles o traduziu para o Inglês, fator importantíssimo na divulgação de suas idéias. Nascia a Genética. Mesmo sem o conhecimento dos genes e de vários mecanismos e estruturas moleculares Mendel explicava, de forma extremamente avançada para a época, os fenômenos que hoje estudamos na Genética. O religioso e cientista Gregor Mendel, que morreu sem o devido reconhecimento, nos deixou um importante legado.
Sempre que analisamos qualquer fenômeno, objeto, ser ou ciência, temos que pensar da forma mais abrangente possível, procurando ir a fundo no contexto das descobertas, de suas implicações morais, éticas, religiosas, sociais e científicas. E assim devemos fazer com a Genética.
Na Mitologia a figura da semi-deusa Pandora deu origem a uma expressão bastante utilizada: “abrir a caixa de Pandora”. Mas o que isso tem a ver com a Genética?
Pandora desejava ardentemente tornar-se uma deusa e casar-se com Zeus. Ela fora oferecida como presente a Epimeteu, e o encontrou levando consigo uma caixa, a título de presente de casamento. Mesmo orientado a não aceitar qualquer presente, Epimeteu cedeu e Pandora abriu a caixa diante dele. Dessa caixa saiu uma fumaça negra, que continha todos os males que até hoje assolam a humanidade. Assim, a ambição de Pandora deu origem a tudo que prejudica a humanidade. Uma vez aberta a caixa não há como ela ser fechada.
A expressão “abrir a Caixa de Pandora”, tal como é usada nos dias de hoje, significa figurativamente que pequenos atos, aparentemente inofensivos ou mesmo benéficos, podem desencadear uma séries de eventos negativos incontroláveis.
Podemos dizer, portanto, que ao estudar os fenômenos que hoje constituem a Genética Mendel de certa forma abriu a Caixa de Pandora. De certa forma, e não literalmente, porque a avalanche de males não dependerá de Mendel, e sim da própria humanidade, que julgará o que fazer com os conhecimentos adquiridos.
Não podemos nos esquecer da ambigüidade que cerca os avanços científicos. O avião, criado por Santos Dumont, constituiu-se em um salto tecnológico fantástico, encurtou distâncias e aproximou pessoas. Mas também é utilizado para lançar bombas.
A energia nuclear, que gera energia elétrica e é usada para curar alguns tipos de câncer, foi usada na Segunda Guerra Mundial contra o Japão e dizimou as cidades de Hiroshima e Nagasaki, com seqüelas presentes até os dias de hoje. Ironicamente, as bombas foram lançadas por um avião, o Enola Gay, assim batizado em homenagem à mãe do piloto. Fica fácil perceber como duas tecnologias podem ser usadas de maneiras tão antagônicas.
As pesquisas com células-tronco, bastante promissoras e com um potencial muito grande de cura, também conflitam com dilemas éticos. Se por um lado podem ser utilizadas células-tronco do cordão umbilical, por outro podem também ser usadas células-tronco embrionárias. E quem define a partir de quando existe vida? Um embrião é vida? Um zigoto é vida? Se nem seres simples como os vírus não conseguimos chegar a um consenso sobre serem ou não vivos, o que dizer de embriões humanos? Quem estaria apto a julgar o conceito de vida?
A tão comentada clonagem também apresenta vários dilemas éticos. Ser geneticamente idêntico não significa ser idêntico. Tampouco representa a garantia de desenvolver características corporais idênticas. Um clone desnutrido durante a infância jamais alcançará o mesmo nível de desenvolvimento de sua matriz, criada em condições adequadas.
Além das implicações emocionais da clonagem não podemos nos esquecer das implicações jurídicas. Como fica o registro de um clone? Quem são seus pais? Quem são seus irmãos? Que papel o clone teria em termos de sucessão e herança?
Todas essas são questões que, sem sombra de dúvida, precisam de muito debate até que uma posição possa ser tomada pela sociedade. E nem de longe tal posição será unânime. Vivemos uma época em que o conhecimento da humanidade avança em uma velocidade várias vezes superior à capacidade da sociedade de absorvê-lo e acompanhá-lo. O que precisamos nesse momento é de reflexão sobre os avanços, humildade e prudência.
Outro campo que surgiu com o desenvolvimento da Engenharia Genética é a tecnologia do DNA recombinante. Trata-se de buscar meios pelos quais possamos manipular geneticamente diversos organismos para que estes apresentem características desejadas. Por exemplo, ao introduzirmos em E. Coli (uma bactéria) um gene que determine a produção de insulina estamos criando um organismo geneticamente modificado (OGM), também denominado organismo transgênico. O mesmo pode ser feito com alimentos, fazendo com que determinados itens passem a apresentar vitaminas ausentes na variedade natural. Tal procedimento, além das óbvias vantagens, pode acarretar consequências negativas. Mas isso não justifica impedir o desenvolvimento tecnológico, e sim se intensificar os estudos.
Cabe a cada um de nós decidir nossa postura. Se dogmática, como a postura religiosa, se liberal, como a postura científica, ou um meio-termo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário